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Sou doutora em Literatura. Escrevo há mais de 15 anos, mas sem disciplina. Sou aquela escritora que se guarda para o futuro, à espera de um grande acontecimento. Sinto que chegou a hora. É com retalhos e epopeias que me inventarei - com pequenos e grandes eventos - com fragmentos e grandes feitos - serei a tecelã de uma história e a sua heroína. Serei Penélope e Odisseu. Me acompanhe nesta viagem! Colunista da seção de Escrita Criativa na comunidade literária Benfazeja. Livros publicados: FLAUIS (2010) e RETALHOS E EPOPEIAS (Editora Patuá, 2012). Mais sobre mim em meu site oficial

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Todos os textos são de autoria de Carolina Bernardes. A cópia não é autorizada e configura plágio. Tecnologia do Blogger.

30 setembro, 2010

O chamado e o Grito


Inúmeros são os escritores que se formam pelo Brasil. As mais diversas pessoas, com diferentes graus de escolaridade, cultura, crenças e motivações. Nutrem em comum o desejo de encontrar meios no mundo moderno de continuarem a escrever, por mais que a arte literária não seja uma fonte rentável para a maioria dos escritores. Certamente, alguns não encontrarão o sustento por meio de seus livros e as exigências do cotidiano profissional serão fatais para sua escrita. Outros resistirão, escrevendo após o horário das aulas naquela pequena faculdade, após servir a muitas mesas em uma noite fria, após atender uma sala de espera lotada de pacientes com dengue. Aos alunos, clientes e pacientes não interessa se o professor, garçom ou médico tem um grito interior que clama pelo sossego, pelo silêncio, pela morte do tempo para que a história realmente aconteça. É assim que os escritores querem e precisam passar sua vida, paralelamente às vozes do cotidiano. Não que sejam pessoas especiais, eleitas por uma entidade sobrenatural, superiores em sensibilidade e dom; essa visão romântica do escritor já não cabe na modernidade. É que o grito jamais cessa.
A mim não convence o argumento de que a escrita deve sempre acontecer, independente da profissão que se tenha, a despeito dos compromissos a cumprir, do salário a ganhar, ao final do expediente, na curta meia hora que sobra, com o sono que amortece o grito... porque, dizem, “a literatura é uma necessidade fisiológica”, e ninguém deixa de comer, dormir e usar o banheiro devido ao emprego. Deveria, portanto, ser o mesmo com a literatura? Deveria a minha escrita ser automática como mais uma atividade do meu corpo, como meu sono e meu intestino? Felizmente, escrever não é uma necessidade fisiológica. É uma atividade do espírito e do livre-arbítrio. A fome ninguém pode negligenciar, mas os ouvidos podem ensurdecer ao grito, ainda que eu fique cada dia mais infeliz.
Como atividade do espírito, a escrita requer tempo, exige a espera muda, para que as palavras se aproximem e possam ser torneadas, para que os personagens criem corpo e escolham sua história. As idéias podem ser captadas numa compra de supermercado, na conversa desenvolta com amigos, em uma aula de Fernando Pessoa. Mas os personagens e as palavras precisam de liberdade para que da dispersão tornem-se matéria aglutinada. E se os personagens precisam de tempo para sair do limbo, o escritor precisa ouvir o grito para que sua vida realmente aconteça.
Não começo a partir de uma folha em branco. Não escrevo na angústia de encontrar o começo do texto. Um texto surpreendente. Novo. Diferente de tudo o que já foi escrito ou lido. O texto genial capaz de me tirar do anonimato ou de inaugurar um portal entre mim e você. Escrevo somente pelo impulso do livre-arbítrio. Quero ouvir o grito. E se aqui escrevo, numa das milhares de páginas da internet, perdida entre tantos outros gritos que se assemelham ao meu, é no intuito de dar alguma sistematização ao caos dos pensamentos.
Escrever regularmente não é tarefa fácil, mesmo que seja prazerosa. As imposições do dia e da noite e o chamado – aquele para o chope, para o programa tolo da televisão, para o encontro com o velho amigo, para a preguiça mais do que gostosa – são, muitas vezes, mais fortes do que a vontade de sentar e escrever. Confesso que escrevo pouco, confesso que sou fraca diante da preguiça e de outros prazeres, como se acreditasse que me restam muitos e muitos anos de vida. Ou, deixo-me simplesmente consumir pelas atribulações e imposições que todos temos. Quando tenho folga, prefiro desacelerar o pensamento e, mais uma vez, me deixo levar. Assim, se ouço o chamado para o prazer ou para a tarefa, deixo de ouvir o Grito e o aprisiono, esperando que a vida, por si mesma, me arranque do anonimato e faça surgir a grande transformação. A espera de quem acredita, de quem tem fé, de quem já ouviu falar em missão. Se nasci com uma missão (como ouvi falar), mais cedo ou mais tarde, a roda vai girar e a história acontecer. Basta esperar. Quanta tolice, não? Eu sei. E é por isso que estou aqui. Pelo desespero. Porque cansei de acreditar que sou, de fato, uma escritora e que o destino se encarregaria sozinho da transformação. Cansei de me culpar por não escrever, enquanto encontro tempo para coisas inúteis ou transitórias, que jamais serão lembradas em um futuro próximo. Cansei de sentir que minha vida não é, simplesmente não é.
Tudo partiu, portanto, de uma decisão. Chegou a hora de transformar minha vida. Sei que, muito provavelmente, não terei leitores, tampouco sairei do anonimato ou encontrarei um editor mágico que me salvará do limbo dos ignorados. Há tanto para ler na internet, por que alguém se interessaria por esta confissão aberta e pela proposta de mover a roda com minhas próprias mãos? Este é o paradoxo: talvez a internet não seja o melhor meio de comunicação. As possibilidades de interconexão são incomensuravelmente amplas, mas é exatamente por essa amplitude que o grito de um indivíduo pode tornar-se inaudível. É um risco. Porém, posso dizer que a opção de escrever um diário, em papel de caderno, é menos tentadora. Não sabemos onde nos levará o mundo digital, mas o papel, como matéria perecível, nos deixa mais distantes da imortalidade.
Aqui estou. Porque a escrita será, a partir de então, o veículo da minha transformação. Será o meu estilo de vida. Renego a preguiça fácil, os prazeres costumeiros, o pensamento lento, o desfalecimento vicioso do verbo mal empregado e do crime contra a escolha alheia, do entorpecimento das boas intenções, da leveza do olhar e dos gestos. Este será o relato de minha luta, por transformar a lama em espírito, por fazer do karma um darma.
Olá, sou uma a mais na multidão. Mas este é o meu grito de superação.

4 Comentaram. Deixe seu comentário também!:

Alan disse...

De passagem, não resisti a um post como este...
Interessante como a alma feminina consegue articular as palavras buscando sempre a emoção da jornada (mesmo que essa jornada compreenda a busca da disciplina da própria escrita)... O talento para seduzir o leitor através de uma maior sensibilidade emotiva... Haja dignidade!

Parabéns, tens muito talento.
Espero que atinja todos os objetivos e não deixe de pensar grande nem um minuto sequer...
Talvez nem todos consigam escutar seu grito (afinal, são tantos que gritam ao mesmo tempo), mas aqueles poucos que o fizerem, certamente, não ficarão indiferentes... Faço de minha visita uma prova disso^^

Com um forte abraço,
Alan J

CAROLINA BERNARDES disse...

Alan, estou tão feliz com seu comentário! Você é o primeiro que realmente entendeu meu Grito. Muitíssimo obrigada. Sinto que há algo em você (um grito? um chamado?) que não passou imune às minhas reflexões.Seja sempre bem-vindo, será, para mim, um prazer, uma honra, uma alegria (uma necessidade?) receber você muitas outras vezes ao meu singelo e titubeante blog. Estou aqui, venha me visitar! abraço grande

jose vitor lemes disse...

Que lindo grito! Embora sendo grito, tem leveza de tom, tem mais do que som, tem formosura nas palavras que mesmo em certo desespero por sentir-se num limbo de momento, transmite a alma de uma escritora que tem nas palavras a varinha mágica de prender, dar prazer e contagiar os que tiverem a oportunidade de ler teus escritos.
Gosto de ler as tuas palavras

CAROLINA BERNARDES disse...

José Vitor, você me presenteou com uma singela surpresa! Este é o primeiro texto do blog, numa época em que ainda não tinha leitores. Pouca gente o conhece e, paradoxalmente, gosto muito dele. Não só por ter sido ele a expressão de do "limbo do momento" (como você disse), mas principalmente por ter sido minha reação a essa sensação de que as coisas não estavam acontecendo e de que dependemos demais dos eventos externos. Na verdade, o livro que agora existe é a prova máxima de que as coisas só acontecem a partir de um movimento interior muito nosso. Nós mesmos fazemos acontecer. Muito obrigada por ler, por comentar e ouvir o meu grito. Quando gritamos, esperamos que alguém nos ouça e é sempre maravilhoso descobrir que tocamos o outro de alguma maneira. Muito obrigada mesmo! Um grande abraço

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  • A Demanda do Santo Graal. (Anônimo)
  • A vida e as opiniões do cavalheiro Tristam Shandy. (Laurence Sterne)
  • Ascese. (Nikos Kazantzakis)
  • Cem anos de Solidão. (Gabriel Garcia Marquez)
  • Crime e Castigo. (Dostoiévski)
  • Folhas de Relva. (Walt Whitman)
  • Húmus. (Raul Brandão)
  • Judas, o Obscuro. (Thomas Hardy)
  • Mahabharata (Anônimo)
  • Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis)
  • Narciso e Goldmund. (Hermann Hesse)
  • O casamento do Céu e do Inferno. (William Blake)
  • O homem que comprou a rua. (Tarcísio Pereira)
  • O Perfume. (Patrick Süskind)
  • Odisseia (Kazantzakis)
  • Odisseia. (Homero)
  • Os Cadernos de Malte Laurids Brigge. (Rainer Maria Rilke)
  • Peter Pan. (J. M. Barrie)
  • Poemas (Seferis)
  • Poemas Completos de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
  • Zorba, o grego. (Nikos Kazantzakis)

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